quinta-feira, 7 de abril de 2011

Zé adormecido

Em algum momento, o qual era impossível definir, mesmo porque ele se acostumou a esquecer, Zé dormiu profundamente. Não narrarei a monótona história de alguém deitado em seu leito, mas sim, a monotonia que Zé nem sentia enquanto reagia a um mundo no qual ele nada via de especial. Zé, sistematicamente se levantava às seis e quinze da manhã em ponto, com a mão esquerda desligava o aparelho que quase nem precisava tocar, pois, como um relógio, ele se levantava junto com o som do despertador. Sua mulher nem se mexia, aprendeu a continuar dormindo sob a movimentação matinal de seu marido.
Na cozinha, preparava o espresso na máquina, a qual precisava ser trocada: para o Zé era preciso ser sempre o último modelo. O jornal em mãos lhe dizia as mesmas coisas de troscentos anos atrás: desgraças, misérias, esperanças, mentiras, ilusões; tudo aquilo que Zé precisava para não se deparar com o branco da parede à sua frente, com este propósito a TV da cozinha ficava ligada espantando o assombroso silêncio.
Com o trânsito, não precisa se preocupar, seu carro vem com DVD de fábrica; liga qualquer filme que o desligue de si e tempos depois chega ao trabalho. Frases ensaiadas há anos são trocadas com as pessoas do trabalho: - Bom dia! Choveu bastante né? - Você viu a desgraça que aconteceu? - E os efeitos especiais do novo filme, você viu? - A Maria vai ficar com o João na novela?
Entra em seu escritório, liga o computador, finge que trabalha, assim como finge que é feliz ou que é triste, que ama sua mulher, que adora seu emprego, que é satisfeito ou insatisfeito com sua vida, que mexe no computador, que se interessa pelo tempo, pela política, pela novela, pelo mundo: Zé finge que vive. Mas tudo bem, as pílulas que a psiquiatra lhe receitou o ajudam a esquecer, não que há um mundo real e diferente lá fora, mas simplesmente, que há um mundo.
Zé se encaixou perfeitamente na sociedade: estudou, se formou, se casou; agora trabalha, recebe bem, consome bem e vive bem... vive bem? A vida de Zé é muito invejada, afinal, ele recebe muito bem, tem sempre um sorriso no rosto e tem tudo que uma vida capitalista tem a oferecer: Zé é a prova de que dinheiro traz felicidade. É mesmo?
Um belo dia ao se trancar em seu escritório, Zé sabia haver algo estranho. Ligou rapidamente seu computador, mas vacilou em olhar pra tela buscando notícias, entretenimento e prazer barato; ele se distraiu do tempo que fazia la fora, do trama da novela, do terremoto de ontem... nada disto mais lhe chamava a atenção. Quando se deu conta ele estava frente à frente com a parede: lisa, branca, vazia... o barulho natural do escritório deixara de ser ouvido: um silêncio assustadoramente alto tomou conta de todo o mundo. Sua respiração se fez presente, sentiu em seu ombro uma certa tensão, se lembrou que tinha síndrome das pernas inquietas quando percebeu que ela se mexia sem parar. Está quente? Começou a transpirar, sentia cada poro do seu corpo eliminando suor indesejado... não, sentia frio. Como se pegasse um lençol estirado, bem preso pelas pontas, e começasse a torcer-lhe o centro, Zé se contorcia por dentro, tentava manter a linha, mas um nó enlaçou-se em seu pescoço e uma profunda pressão em seu peito dificultava-lhe a respiração. Pensou: estou vivo!!! Assombrado, arrebatado, desnorteado, Zé se levantou da cadeira. Suas pernas estremeceram: o branco continuava ali e o silêncio gritava em seus ouvidos. Se lembrou de um pesadelo que tivera quando menino: um homem de terno tentava lhe explicar alguma coisa que ele não queria saber, quanto mais o homem falava, menos ele entendia; até que, ele reparou nos olhos do homem e viu que era totalmente vazio, sem cor, sem vida, sua pele era totalmente pálida. Quem é você? Gritou o zézinho. Eu, respondeu o homem, sou você. Acordou tremendo chorando, ao que sua mãe veio lhe socorrer. Mãe? Não adiantava chamar, ele já havia se distanciado antes mesmo dela ter morrido. Sentiu toda a angústia atravessar o nó que havia em sua garganta, seu rosto se contorceu e conjuntamente com um tremor involuntário dentro de si fez jorrar em sua face um líquido quente. Estou vivo!!! Chorava inconsolado. Não conseguia mais se distrair, o branco e o silêncio tomaram conta de si, foi quando algo passou pela sua cabeça: o remédio! Não havia tomado a pílula. Após tomá-la, instantaneamente o efeito placebo lhe permitiu se distrair pensando no jogo que seu time fará a noite; mas não era suficiente, vacilava sua atenção e o abismo surgia-lhe diante dos pés. Tomou mais um remédio.
Ainda meio tremendo, com o resto molhado, Zé voltou a se esquecer; ligado o automático poderia continuar a envelhecer profundamente adormecido. Em sonhos lembrava-se de quando era vivo: intensas cores eram aquelas do parquinho ao lado de sua casa, o vermelho do escorrega, o azul do gira-gira, o azul do céu... como era bom brincar ali na areia onde ele construía imensos castelos, sem se preocupar que com o mais leve deslize ele poderia vir abaixo. Mas, ao se levantar, nenhum traço de vida era levada consigo para dar qualquer sentido ao seu dia a dia.